terça-feira, 28 de abril de 2009

Ask e Embla - lápis - Thiago Bakargy

Uma pessoa mística


Como poderia alguém ter uma alma mística?
Você esconde segredos tão ocultos, em seu rosto
Como olhos de gato brilhando nas ruas escuras à noite
Você poderia ter vindo das florestas encantadas?
Ou do céu, ou do fundo do mar?
Porque existe algo em você que nem os deuses reconhecem
Faz aflorar meu romantismo mais absurdo e esquecido
Algo em mim que eu julgava estar morto
Seria você uma vampira, já que adora a noite, e celebra os prazeres carnais?

Místicas são as coisas ocultas, mágicas e enigmáticas, como os segredos da esfinge e de Atlantes
Como alguém poderia ter esta aura mística?
Mas sim, você pode
Tu vens destas lendas, trazendo toda a fantasia
Eu encontro em seus olhos os rios azuis que eu tanto procurei
Eu encontro o que perdi de mim, dentro de mim




Da coragem para escrever


Para escrever estas palavras
Estas frases que vem do abismo da mente
É preciso ter certa coragem
Pois o mundo dentro do mundo, que eu visito
É bem diferente desta realidade opaca e nervosa
Os homens tolos e materialistas tratam tudo o que eu sou,
Tudo o que eu tenho,
Como lixo.

É preciso jogá-los no fosso e queimá-los na minha mente
Para escrever assim
É preciso libertar-se das correntes cinzas

Mas porque eu me preocupo com estes homens de pedra?

Talvez porque dentro de mim exista um deles que tenta sempre me prender

Será que no fundo eu gostaria de ser um deles?

Não, na verdade não, eu preferiria morrer.





A biblioteca de Alexandria


A biblioteca de Alexandria
É o presente que eu gostaria de ganhar

Naquelas tardes-céus-avermelhados
Reuniram-se para escrever
Escritos da luz de Deus
A seiva da árvore da natureza
A sabedoria divina
Palavras de Thot,
Ensinamentos de Hermes
Gravados em troncos do tempo,
Rabiscos mais sagrados que mil livros
Como água escorridos para os cérebros
Com vozes brilhantes provindas de sonhos
Gênesis de universos explicados passo a passo
Lidos em veias de braços
Naquelas noites azul da Prússia
Delírios verdadeiros,
Conjuras e tratados alquímicos,
Impressos por mãos.
Impressões digitais que falavam
Das colunas gregas e do sangue celta
Do coração do Egito
Quando as esfinges ainda falavam
Enquanto a última pedra da pirâmide foi colocada
E eu pude ver a minha imagem dizendo a mim que eu existiria um dia
Entidades ilusórias do Nilo
Figuras antropozoomórficas reais miando segredos mais antigos que a raça humana
Sonhos reais e suas respostas para a vida documentados tranquilamente
Por gente que tinha tempo pra viver
Grãos de areia molhados caindo das árvores
Escadas para baixo e para cima ao mesmo tempo
Cobra-pássaros sábios falando aos maias
O deus Horo-Set simples e absoluto
Atlantes vislumbrantes de futuros morrendo em êxtase
Respostas tão simples e completas que hoje parecem idiotas
Fluindo como o vinho das garrafas
A verdadeira identidade dos gatos...

Montes de cinzas que já foram livros
Chamas de fogo que destroem mundos
Pó seco e triste
Que já foi vida

A biblioteca de Alexandria era só o que eu queria





O fim


Às vezes eu penso no fim
E no fim eu estarei pensando no começo
O fim está acontecendo enquanto isso em outro universo
Eu estou lá
E estou aqui
Porque eu tenho que me preocupar se um dia o planeta não mais existirá?
O fundo do mar continua lá, as estrelas continuam lá
Minhas lágrimas não tem força suficiente pra fazer o que eu quero pra mim
Eu sou uma nuvem no céu, eu sou um bloco de pedra grega
Quem colocou limites entre meus átomos e os átomos ao meu redor?
Quem disse que eu acabo ali depois da minha pele, e o próximo átomo não sou mais eu

O que é um sonho?

O que é real?

O que significa a palavra real ao pé da letra?
Um sonho não é real? Ele não existiu? Um dragão não é real?
Ele está muito bem visível ali no papel

O fim é um começo
E o eterno nós nunca vamos entender

Eu queria controlar o tempo

Mas será que a vida ainda teria graça?

Na verdade eu queria não querer









Livre


Eu não estou livre quando faço o que todos querem que eu faça
Não estou livre quando faço o que eu quero
Não estou livre quando estou bonito ou com um sorriso no rosto
Não estou livre quando não tenho o que fazer
Nem quando estou muito ocupado
Não há liberdade na fé nem na religião
Não há liberdade no prazer, nem na dor
Não estou livre quando ando sem destino
Nem quando estou exatamente onde quero
Não estou livre quando durmo e sonho
Não estou livre enquanto espero e nem quando faço alguém esperar
Não há liberdade nem na riqueza nem na pobreza
Não há liberdade no amor e nem no ódio

Eu estou livre quando percebo que na mais absoluta verdade nada, absolutamente nada importa. Assim qualquer coisa flui.
















Thiago Bakargy


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