terça-feira, 9 de setembro de 2008

Cidade mística - aquarela - Thiago Bakargy




Insubstancial




Já agora, vamos olhar para aquele planeta
Olhem como de longe brilha seu azul,
E seu branco, como resplandece no negro espaço etéreo!
Mas vejam que lástima,
Pobre mundo, tão superficial,
Não em sua essência, claramente
Mas por trabalho, por ação
Ali fermentaram os homens
Recriaram deste jeito
Estas facetas, infelizes
Tornaram assim,
Por assim dizer,
Fraco, diluído,
Sem graça, sem gosto
Sua realidade.

Moldaram era após era,
Com a matéria primordial,
Este solo assim meio morto
E com eles todos ali
Morreram todas as coisas
Morreram em essência
Deixaram suas cores verdadeiras fenecerem,
Caindo em gotas para um bueiro para o nada.


Este mundo que ainda pode se dizer azul,
Tinha dantes luzes enigmáticas, substâncias brilhantes!
Seres tão mágicos, plantas tão vivas!
E a própria terra falava,
Emanava suas energias sem pudor
E cachoeiras que cantavam
O mar profundo se movia.
Possuía vários futuros, com certeza
Para serem ali mesmo construídos
Passo a passo
Pelas mãos deste mesmo homem

Mas o próprio passado nos mostra...
Percorreram a trilha mais decadente
Hoje se pode ver a magia, nesta terra?
Estes grandes céus negros acinzentados de guerra
De sangue sujo,
Jorrando pelos chãos,
De pólvora e dor,
Tão falsas estas pessoas!
Não se pode sentir mais,
Quase nada,
Ali dentro desta atmosfera,
Tudo tão vazio e falso,
Impuro, triste e melancólico,
Que se sente medo até no seguro
Que não relaxa nem no mais puro abraço
Pois o mal vem e ultrapassa qualquer barreira
E é tão fácil conseguir suas superficialidades,
Com dinheiro
(maldita invenção)
Que não tem-se mais valor
Em nada.

E este mundo insano,
Decadente,
Semi destruído
Arrancou-me o que eu tinha de inocente
Com suas mãos repulsivas
Tirou-me as fantasias
Os sonhos
E agora eu vejo aqui,
Maneiras de sobreviver
Como que com escudo ou armadura
Escondendo meus lados mais mágicos
E belos,
Para continuar como um deles
Pois o que posso fazer não é suficiente
Para mudar o Todo

Nós às vezes somos animais
Perdidos num labirinto sem fim
Correndo, fugindo
Fugindo de algo que não podemos ver
Dia após dia
Porque não há saída,
Para este certo lugar
Não há uma porta
(talvez a morte)
E buscamos satisfazer este desejo
Com falsas pílulas de prazer
Com modestas doses de satisfação

Mas os velhos homens já pintaram
A tela onde nós vivemos

(Nota 1: alguns apegam-se ainda em idéias como o Apocalipse,
que seria como uma libertação, para reverter o que foi feito,
mas eu acredito que é provável que não, que não tenha como fugir, fugir deste fardo.
Nota 2: Como o último Dodô se sentiria se por um momento se tornasse racional e soubesse que é o último de sua espécie?)






Lobisomem


Um grave e medonho uivo pode ser ouvido na noite
Quando a lua cheia fulgura
Ele está lá fora a matar
Caçando a raça humana
Saciando-se com o sangue fresco
Sua ira é implacável,
Nada pode resistir
A este juiz da natureza

Ele amanhece com as mãos vermelhas
Manchas do genocídio
Lamenta-se, mas nada pode fazer...
Subjugar-se à força da lua
É a sua maldição






Nuvem



Meus dedos tremem de ansiedade
Meu coração bombeia forte
Porque não tem jeito nessa cidade
Nestas ruas
Você precisa vir pra me abraçar e me acalmar

Dai é como entrar num sonho
Dormir nos braços de uma deusa
Lento, como um cisne no lago

Eu sou um cão furioso na chuva
Nas esquinas e nos becos
Sem direção,
Um louco preso nas correntes das horas
Do tempo, dos relógios
Bem agitado por dentro
Perdendo a razão de existir
Minhas peças caindo e desfazendo-se

E você é uma calma primaveril
Uma nuvem leve e branca
Um blues tocado por alguém com sono
E eu nem sei como você consegue
Ser assim


Só você mesmo
Pra fechar certas portas que trazem ruídos
E imagens desagradáveis
(que sorte eu tive de te encontrar!)
Venha logo e exista
Exista no meu mundo,
Nos meus sonhos
Apenas esteja aqui
E já é suficiente
Pra me fazer feliz







Gárgula



Gárgula

Você é como eu
Foi um dia uma pedra pura, fruto da terra
Pelas mãos do artista tornou-se o monstro que és,
Com tua face medonha
Corpulento, dotado de espinhos
Figura sinistra e bizarra

Também nasci como uma rocha a ser moldada
E sofrimento após sofrimento
A realidade me talhou
De forma que perdi muito da minha essência

E agora nós somos como irmãos,
Pedras cinzas
Corações de mármore

Agora observamos o horizonte
Como um espectador fora de cena
Nem lamentamos,
Nem sorrimos
Somos estátuas ali, lado a lado
Parte de um mundo injusto e sóbrio
Lutando para continuar existindo







Tristeza oculta



Uma tristeza que você não sente diretamente
Um vazio que você não consegue preencher nem com prazer
Geralmente acompanhada de insônia,
É como uma falta de razão.
Falta de razão na vida, no todo.
A ausência de um motivo, um propósito.
Dor, dor que não se mostra por completo,
E não te deixa chorar, nem sorrir.
Algo como uma vontade, uma carência,
Mas que não pode ser preenchida,
Nem você sabe o que deseja, na verdade,
Nem que procurasse no mundo inteiro,
Não encontraria forma de saciar
Essa melancolia abstrata,
Essa ânsia insistente,
Que devora por dentro,
Que não descansa, que não cessa.
É tristeza oculta,
Infinita,
Sem lógica,
Pois é a falta de lógica em si.
A ilógica desse mundo,
A falta de tudo,
Um grande “por que?”
Indagado para o universo.






(Thiago Bakargy)






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